domingo, 27 de novembro de 2016

* Nove corações em mim.


Às vezes fico confusa com tamanho carinho que nutro por crianças que não me são directamente nada. Sofro com as suas dores, apresso-me a secar-lhes as lágrimas, rio com as coisas que me dizem, abraçamo-nos só porque sim. Conheço cada uma delas como a palma da minha mão e só fico bem comigo mesma se lhes der o máximo de mim. Tenho a sorte - sim a sorte - de só ter nove crianças na sala. Posso dedicar-lhes todo o meu tempo, ouvi-las, sentir o que me querem transmitir. Posso trabalhar individualmente de uma maneira mais profunda do que alguma vez consegui. Para outras educadoras talvez uma sala com nove crianças seja uma anedota. Para mim é a melhor coisa que poderia ter acontecido aqueles pequenos. Posso sentar-me com cada um diariamente, ajudá-los a crescer, perceber quais são as suas fragilidades e trabalhá-las sem pressas. Já estive em salas com mais de vinte crianças e sinto as diferenças na pele. Consigo dar mais de mim, consigo chegar mais longe. Vejo-os a crescer, sinto-os a darem passos de gigante. Seja por começarem a dizer um simples "se faz favor" ou por conseguirem reconhecer os números. Festejamos todas as pequenas vitórias e até eles aprenderam a congratular-se uns aos outros. E nada é mais especial do que assistir a isso: há sua amizade que não pára de crescer. São poucos mas, talvez por isso, são cada vez mais unidos. E, quando há uns dias atrás, fechei os olhos por segundos e os ouvi brincar, sorri. Ali todos nós somos felizes. Não podia pedir mais nada.

* O poder de me reinventar.


Há já alguns anos atrás, na minha primeira espécie de estágio, uma criança disse não compreender os adultos. Antes que eu pudesse responder logo uma outra se sobrepôs: e achas que eles se entendem a eles mesmos? Não é que ela, do alto dos seus cinco anos, tinha toda a razão? Ora há dias em que fazemos tudo para o lado direito. Mas depois, de repente, passamos a querer fazer tudo para o lado esquerdo. E as crianças, por muito que não acreditem, apercebem-se de tudo isso.

Já fui, por várias vezes, agarrada na teia das regras que criámos para a sala. Se na maioria dos dias lhes digo para comerem com calma - visto que não vamos apanhar o comboio - há outros em que preciso que se despachem um pouquinho mais rápido. E eles olham para mim, confusos, sem perceber o que pretendo afinal. Outro exemplo, normalmente tento que eles acabem aquilo a que se propõe: seja um trabalho, uma brincadeira ou um jogo. Mas já aconteceu eu querer passar para outra atividade e quando lhes pedi para arrumarem um puzzle eles olharem para mim e dizerem-me: Não Cláudia, tens que nos deixar acabar. E eu deixei. Porque afinal de contas eles têem razão. Criei as regras e agora, por capricho meu, acho que devem ser contornadas?! Que tipo de adulta seria se passasse essa mensagem aos mais pequenos?!

Orgulho-me, todos os dias, por ver que posso confiar neles. Que eles são responsáveis. Que gostam de cooperar comigo. Orgulho-me sempre que eles me mostram as minhas falhas, para que eu possa continuar a crescer. Sim, há dias em que nem eu própria me compreendo. Mas nesses dias normalmente os meus pequenos mostram-me o caminho...

* Cresço com eles; Para eles.


Lembro-me que quando era estagiária pensava demasiado nas coisas. Tentava arranjar uma justificação sustentada para tudo. Lia mil textos e tinha que ter tudo controlado. Até ao dia em que a minha orientadora me disse "Cláudia, abranda. Deixa-os ser crianças e faz menos atividades". Eu estava tão preocupada em mostrar trabalho que, sem me aperceber, os estava a condicionar negativamente. A inexperiência de alguém que ainda temia cada novo dia.

Agora?! Agora deixo o dia fluir. Agora não me preocupo em justificar teoricamente cada palavra, passo ou decisão. Deixo-me ser eu e deixo-os ser eles. Se antes eu iria para casa a pensar em tudo o que poderia fazer para inovar, agora deixo que os dias se construam a si próprios. É óbvio que planeio determinadas coisas - não sou assim tão desleixada - mas acabei por encaminhá-los para outros locais da sala (como a biblioteca ou os jogos) sem ser preciso escrever uma tese sobre isso. Sem ser preciso perder dias a pensar sobre o porquê de eles só quererem estar na área da casa ou na da garagem. Lembrei-me simplesmente, um dia da semana passada, de lhes dizer para se sentarem a ver uns livros. Desde aí a biblioteca tornou-se o sítio preferido de alguns deles. Desde aí que os jogos os têm desafiado e me têm mostrado quais são as suas fragilidades a serem trabalhadas.

Sim, as crianças precisam ser direccionadas. Sim, é minha função encaminhá-las por determinados caminhos. Mas aprendi, com a minha ainda pouca experiência, que com calma e tempo tudo se alcança. Estou com este grupo desde Maio e já noto diferenças exponenciais em todos eles. E é aí que sinto que o meu trabalho está a ser feito. Quando chegam de manhã e me sorriem. Quando me vêm dar um abraço. Quando me procuram porque precisam de algo ou quando me querem simplesmente mostrar algo. Quando transmitem aos outros adultos ou a outras crianças as regras da sala. É aí que eu sei que fiz bem em tomar esta decisão para nós: esta da sala ser um mundo aberto. Todos os dias descobrimos algo novo, juntos.

* Liberdade para brincar!


A coisa que sempre mais me fascinou em trabalhar com crianças foi observar as suas brincadeiras. Sempre me foi dito que devíamos intervir o mínimo possível, para não condicionar as suas escolhas. E, acreditem, é interessante assistir à interacção entre pares. À forma como, quase automaticamente, raparigas se unem às raparigas e os rapazes aos rapazes. É como vermos um reflexo da socidade, mas em miniatura. É ver reflectido nas crianças aquelas ideias pré-concebidas do século passado. Mas depois há aquelas crianças que vêem o mundo do avesso e decidem que querem ser diferentes de todos os outros. E eu só posso dar força a estas decisões, a estas saudáveis "misturas". 

Ao contrário de algumas pessoas com que já me cruzei, não gosto de direccionar as crianças para um género de brincadeiras. Deixo os brinquedos à sua disposição e cada um é livre de pegar naquilo que quiser. Já vi rapazes a brincar com bonecas e raparigas a brincarem com carros. E que mal tem? Nenhum. Eu própria brinquei com carros e joguei à bola. Isso fez de mim menos rapariga? Nem por isso. Gosto dessa liberdade de podermos escolher aquilo que nos faz mais feliz e que condiz por completo connosco. Gosto que não haja recriminações por uma criança pegar num brinquedo que não é "tipicamente" para o seu género. Acho que já ultrapássamos a época em que os rapazes tinham todos de ser muito "machos" e as raparigas muito "delicadas".

A próxima vez que tiverem a oportunidade de observar um grupo de crianças a brincarem percam-se nos seus diálogos. Nas suas expressões. Talvez se revejam um pouco nelas... Afinal de contas os mais pequenos trazem muito daquilo que vêem e ouvem para as suas brincadeiras. E que nunca esqueçamos que a brincadeira não é uma coisa de menina ou de menino. É uma - importante - coisa de se ser criança. E é delicioso assistir!

* Como eu vejo as crianças.


De nós, adultos, só precisam de carinho. De amor. De amizade. Precisam de um porto de abrigo, de um local seguro onde chorar quando a vida as magoa. Precisam de alguém que as conheça como a palma da mão e que lhes dê colo sempre que o dia custar a passar. Vão saber ler-nos as expressões e dirão as coisas mais inconvenientes à frente de uma multidão. Irão fazer-nos rir tanto quanto nos irão deixar aborrecidos. Gostam de presentes mas, no fundo, vão preferir sempre a presença das pessoas mais importantes. Irão dar-nos, sempre, abraços e beijos inesperados que nos aquecem o coração. Irão adormecer no nosso colo e aconchegar-se como se a vida delas dependesse disso. Irão querer ajudar-nos em todas as tarefas, para se sentirem crescidos. Vão mentir, de vez em quando, para chamar à atenção. Vão testar limites e não irão aceitar aquilo que temos para dizer. Não se surpreendam. Não se irritem. Falem com elas. Ponham-se ao seu nível e olhem-nas nos olhos. Respondam-lhes às questões, por muito difíceis que sejam. Não as ignorem. Sejam firmes. Criem laços fortes para que a relação seja inquebrável. Acreditem, quando se entregam de alma e coração às crianças elas retribuem com tanto ou mais amor.

Não pensem que elas são  crianças. Aqueles pequenos seres irão ser, um dia, adultos. E cabe-nos a nós ajudá-las a construirem o melhor futuro possível. Amem as crianças que vos rodeiam e não se inibam de lhes mostrar o mundo. Elas agradecem.